
Para iniciar 2009 com o pé direito, um post especial. Entrevista com André Luiz Lopes de Alcântara, aprovado em 1º lugar no concurso da Câmara e em 1º no concurso do Senado. Ele é bibliotecário formado pela UnB, atualmente na Procuradoria Geral do Trabalho, é um colega de trabalho que tive o prazer de conhecer pessoalmente em setembro do ano passado em Brasília. Diga-se: profissional muito competente.
Vale a pena ler o que André tem a dizer.
Olá André, tudo bom?
Tudo bom, Gustavo.
Quem é André?
Essa é a pergunta mais difícil. André Luiz é um cara de origem simples, que tem conseguido algum sucesso na vida, com muito empenho e com a ajuda de Deus e da família.
O que te levou a fazer biblioteconomia?
Em 1996 (no século passado!), fiz um concurso aqui no DF para técnico de biblioteca escolar e passei, mesmo sem conhecer direito a área. Fiquei alguns anos lá, e fui gostando de biblioteca. Eu tinha só o nível médio e estava tentando o vestibular da UnB em outra área, mas não tinha convicção de ter escolhido a profissão certa. Não conhecia a biblioteconomia, nem o curso na UnB. Quanto tomei conhecimento da área fiquei bem interessado e empolgado. Resolvi tentar. Logo me inscrevi e passei. Ao contrário de muitos colegas de profissão, escolhi a profissão porque gostei da carreira, não por causa da concorrência do vestibular.
Você gosta de ser bibliotecário?
Gosto muito da profissão, e me sinto totalmente realizado. Creio que vou permanecer na profissão definitivamente, mas com as devidas atualizações que a profissão vem sofrendo com o tempo.
Como é ser bibliotecário em Brasília?
É ótimo! A começar pelo curso, que é de um padrão de excelência muito alto. Em segundo lugar porque aqui você tem algumas das melhores bibliotecas do país para estagiar e evoluir na carreira. Por último, tem concurso o tempo todo e para os melhores órgãos, especialmente tribunais superiores e sedes de órgãos nacionais. Aqui se vive uma cultura de concurso público, o que tem feito de Brasília um dos melhores lugares do país para essa atividade.
Você foi um bom aluno na graduação?
Posso dizer que sim. Digo não por ser mais inteligente ou capacitado que outros colegas, mas sim pela dedicação que investi. Eu fiz todo o curso enquanto trabalhava naquele emprego que citei. Não tinha tempo a perder. Estudava nas horas vagas, no intervalo de almoço, no fim-de-semana, dentro do ônibus. Por causa do trabalho, perdi muita oportunidade de estágio e de bolsa de pesquisa, que meus colegas de curso aproveitaram bem. Como eles aproveitavam bem o curso, eu tinha que estudar muito mais para poder ficar no mesmo nível da turma. Foi uma época muito difícil, pela falta de tempo e de dinheiro. Trabalhava até 11 da noite e ia para casa de bicicleta, pois o transporte público de Brasília é precário, especialmente à noite; acordava antes das 6 para ir estudar; ganhava pouco e já era casado. Fui muito difícil…
Em que momento decidiu se preparar para concursos?
Minha história com concursos é antiga, antes da biblioteconomia. Assim que terminei o ensino médio comecei a estudar para concurso. Já fui censitário do IBGE por uns 5 meses. Assim que saí desse emprego, fui trabalhar na biblioteca escolar. Enquanto isso, continuava fazendo concurso, sem muito sucesso, pois não tinha dinheiro pra investir em livros, apostilas e cursos. Percebi então que precisava de um curso superior. Quando entrei no curso de biblioteconomia, já sabia que iria ser bibliotecário de um importante órgão público. Meu alvo era Câmara ou Senado. Como sabia desde o começo que esse alvo era muito difícil, talvez até impossível para alguém que veio de baixo como eu (em comparação com meus colegas de curso, que estudaram quase todos nas melhores escolas particulares de Brasília), já durante o curso me dedicava a aprender tudo que me chegava à mão. Resolvi dar tudo de mim para chegar aonde queria. Fiz uma ótima graduação, já pensando em Câmara e Senado. Quando terminei a graduação, continuei estudando, mesmo sem previsão de sair os editais.
Em quais concursos você foi aprovado?
Vou contar meu histórico de concursos em biblioteconomia.
Meu primeiro concurso da biblio fiz ainda no terceiro semestre do curso, só de teste. Era o BNDES. Passei, mas fora das vagas, lá no fim da fila.
Ainda no último semestre da faculdade, saíram 2 importantes concursos: STJ e MPU. Era uma época complicada, pois estava fazendo monografia e estágio supervisionado ao mesmo tampo, além de outras disciplinas. Não deu para estudar direito para o STJ, mesmo assim fiquei em nono lugar, mas só havia uma vaga. Um mês depois saiu o MPU, com 13 vagas, fiquei em 3º nacional. Esse foi o mesmo concurso que o Gustavo Henn fez e também passou (Nota do entrevistador: Eu fiquei em 4º). Por enquanto, somos ainda colegas de MPU.
Como assumi logo esse cargo, não compensava ficar fazendo qualquer concurso, pois o salário do MPU é igual ao do Judiciário. Então, continuei estudando para Câmara e Senado, mesmo sem previsão de quando aconteceria.
Surgiu então o concurso da Câmara Legislativa do DF (CLDF). Eram 2 vagas. Até a última fase eu estava em segundo. No recurso da prova discursiva “acabei indo para terceiro por 0,8 pontos”. Fiquei chateado e contente ao mesmo tempo, pois o salário da CLDF era muito bom mas eu não gostava do órgão e nunca quis trabalhar lá. O bom salário poderia me deixar acomodado e desistir do meu alvo.
Nesse ínterim, saiu o concurso para o TCU, órgão maravilhoso e com salário no nível de Câmara e Senado. Só que não me preparei direito e fui eliminado logo nas objetivas, na parte de legislação. Isso não me desanimou. Aprendi com os erros e continuei a preparação.
Finalmente em 2007 saiu o concurso para a Câmara. Senti que seria a minha hora. Estudei muito, tirei até férias para estudar. Aí o concurso foi adiado e as vagas reduzidas. Uma decepção. Desanimei muito. Diminuí o ritmo de estudo. Ao aproximar-se a prova, retomei os estudos e fiz a prova. Não contava sequer ficar entre as vagas, mas graças a Deus fiquei em primeiro. Com toda uma confusão na Justiça, o concurso ficou parado e tivemos até de contratar advogado para nos defender. Vencemos na Justiça e o concurso prosseguiu. Ainda não fomos nomeados, mas estamos perto disso.
Então, em 2008, saiu o Senado. O edital foi uma decepção: uma vaga (+ uma para deficientes) e sem previsão de cadastro de reserva. Muita gente desistiu. Eu estava desanimado, pois tinha acabado de perder minha mãe, e estava cansado de estudar para concurso. Mesmo assim resolvi me inscrever. Fiz a prova sem estudar quase nada e também fiquei em primeiro. Poucos passaram, pois a prova foi difícil e os critérios de eliminação degolaram a maioria. Fiquei muito surpreso com a aprovação em primeiro novamente. Acho que a preparação para o concurso da Câmara foi suficiente para obter a aprovação também no do Senado. Estou esperando a homologação. A previsão de nomeação é janeiro de 2009. Espero que aconteça conforme a previsão.
Você foi primeiro lugar em dois dos concursos mais interessantes para os bibliotecários brasileiros, que ocorreram em um intervalo de 1 ano. Como você se mantém sendo o número 1 durante tanto tempo?
Acho que são diversas circunstâncias:
- Primeiro, ter fé em Deus, de que Ele vai guiar os seus passos e dar o que é melhor para você;
- Fazer uma boa graduação, aproveitando tudo quanto possível;
- Continuar estudando mesmo após a formatura;
- Manter-se atualizado nas últimas novidades da CI;
- Ter familiaridade com informática;
- Estudar muito bem Português, pois geralmente é peso 2, assim como biblioteconomia;
- Estudar direito administrativo e constitucional sempre, mantendo-se a par das atualizações jurídicas;
- Não desanimar nunca, mesmo diante de dificuldades e de resultados ruins.
Qual a importância da família nos seus estudos?
A família é essencial, pela força e pelas condições de estudo que lhe dá ou lhe tira. Uma família que o apóia e o anima a prosseguir diante das dificuldades pode ser a diferença entre sucesso e fracasso. Minha esposa foi ótima, pois compreendeu que eu estava buscando os meus sonhos profissionais, e, não sem sofrimento, abriu mão de minha companhia por muito tempo para os estudos. Compartilho minhas vitórias com ela.
Você ainda pensa em fazer outros concursos?
Como consegui chegar ao meu alvo, informo aqui minha “aposentadoria” para concursos. Acho que, após a nomeação na Câmara ou Senado, terei chegado ao topo da profissão, no ramo de biblioteconomia no serviço público. Vou buscar outros alvos, em outros aspectos da vida profissional e particular. Afinal, a vida não é só estudar para concurso público…
Existe relação entre ser um bom concurseiro e ser um bom profissional?
Existe sim, Gustavo, e é uma relação direta. A atitude profissional faz com que você busque todo dia agregar novos conhecimentos, e aperfeiçoar suas atividades, tornando-o mais apto e produtivo. Você aprende a analisar as situações do dia-a-dia de maneira mais rápida, prever erros e dificuldades futuras e se preparar para elas. Você se torna mais analítico e seguro de si, e com uma bagagem informacional muito maior. Tudo isso vai se refletir nos seus estudos e no momento das provas, para melhor ou para pior, depende de você.
Quais são teus planos para o futuro próximo?
Nada muito específico. Quanto aos concursos, folgar. Quanto à carreira, prosseguir a todo vapor. Quanto à família, aproveitar mais. Quanto à fé, aumentá-la. Quanto aos amigos, rir muito. Quanto à vida, crescer… ambicioso, não?
E daqui a 10 anos, como você planeja o André em 2018?
Imagino-me em uma vida mais tranqüila. A carreira ainda em ascensão, com grandes projetos e desafios que me farão crescer. Quero morar em um lugar melhor e agregar novos amigos ao meu círculo. Terei conhecido muitos outros lugares e vivido muitas aventuras. E, com certeza, planejando como serão os 10 anos seguintes…
Deixe algumas dicas de estudo para concurso aos nossos leitores.
Claro que sim. Primeiro as DICAS GERAIS:
- Antes de tudo, tenha fé em Deus e em você mesmo; juntos, você e Deus são invencíveis;
- Escolha um alvo, um sonho, um cargo que você almeja. Seja ambicioso. Pense em algo grande mesmo. Resolva que você lutará por esse sonho todos os dias e não desistirá dele por nada, a não se que seja por algo melhor;
- Organize seu tempo e sua vida de modo a colocar os estudos como prioridade. E saiba que não há duas ou mais prioridades. Prioridade é algo que está em primeiro lugar, pode ver no dicionário. Não existem dois primeiros lugares. Não que você não vá fazer outras coisas. Deve fazer sim, mas cada coisa na sua devida importância. Reserve tempo para família, amigos, lazer e descanso, mas não se esqueça que você tem uma prioridade. Para obter algo melhor, você tem de abrir mão de outras coisas, ainda que provisoriamente;
- Estude muito e com afinco, todo dia, se possível;
- Não desanime com os obstáculos ou com os primeiros resultados. Tudo isso faz parte do processo de crescimento e amadurecimento;
- Para quem é iniciante, é recomendável fazer um cursinho, especialmente naquelas áreas que o bibliotecário geralmente não domina, como legislação. De vez em quando, é bom também voltar e fazer uma reciclagem com as atualizações, pois legislação muda muito;
DICAS ESPECÍFICAS
- Mantenha um ambiente de estudo limpo de distrações como computador, telefone, música etc;
- Peça ajuda à família, para deixá-lo estudar com tranqüilidade; se não houver ambiente propício em casa, procure outro lugar, como uma biblioteca;
- Compre todos os livros e apostilas de que necessita. Se não tem grana, peça ajuda a familiares, amigos, tire cópias, estude na biblioteca… se vira, camarada… não deixe que esses obstáculos o (a) derrotem. Trata-se de investimento e não despesa. Quando você tiver o retorno, você compensa quem o ajudou;
- Selecione todo o material que precisar. Recorra à Internet sempre para os assuntos mais novos.
- Faça muitas provas de concurso e anote o que você não sabe, para pesquisar e sanar a dúvida. Nunca deixe dúvidas para trás. Para otimizar essa parte, recomendo usar o programa Superprovas (http://www.superprovas.com/), que já faz a seleção das provas por você. São mais de 100.000 questões de provas de concurso, sendo mais de 1300 só de biblioteconomia, com gabarito e outros recursos, como seleção de questões por matéria e assunto, análise gráfica do seu desempenho, possibilidade anotações personalizadas. Você pode organizar as questões por banca, ano, cargo, órgão e dispõe de vários outros recursos. Você obtém o programa uma vez só, e recebe uma ou mais atualizações por mês. Você só precisa renovar a licença de atualização anualmente. Acho esse programa fundamental para conhecer a banca e dar maturidade em responder provas, não cair nas armadilhas das bancas e desenvolver a “malícia” de resolver questões; outra vantagem é que você não fica perdendo tempo para selecionar, imprimir e organizar provas;
- Recomendo também a leitura dos livros do William Douglas (http://www.williamdouglas.com.br/), especialmente o “Guia de Aprovação” e o “Como passar em provas e concursos”, mas ele tem muitos livros que vale a pena ler, ou melhor, comprar e ler. Não é despesa, é investimento. Ele dá muitas dicas de como otimizar os estudos e coloca o seu ânimo lá em cima, pronto para enfrentar qualquer desafio. Dá dicas até de como chutar as respostas que você não sabe, e dicas de como se comportar durante a prova! Muito bom. Recomendadíssimo;
- Faça resumos, gráficos, mapas mentais para fixar melhor os estudos na mente. Reveja sempre esse seu material individual, que tem de ser elaborado por você mesmo, pois só você o entenderá. Quando estiver próximo da prova, estude só por esse material;
- Mantenha um grupo de estudo só com gente realmente interessada, e que esteja disposta a dividir com o grupo tudo que aprender. É um grupo de auto-ajuda, que troca dicas e materiais, conhecimento e motivação. Não adianta ser egoísta nessa hora, pois o outro pode o (a) ajudar muito; e só vai fazer isso se for ajudado também;
- O que sempre é cobrado tem que estar na ponta da língua. Qual o concurso que não se cobra Português, por exemplo? Se vai “cair” com certeza, você tem de saber. Estudo muito regência e concordância nominal e verbal. Importante se atualizar com as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, pois é possível que sejam cobradas nos próximos concursos. (Obs.: Esta entrevista foi feita ainda com as regras ortográficas antigas). Direito constitucional e administrativo sempre é cobrado também, então devem ser estudados;
- Não se omita no Inglês. É a língua mais importante e mais falada no Ocidente, além de ser a língua da Internet. Cada vez mais está sendo cobrada nos concursos. Esteja certo de que consegue ler e entender inglês o suficiente para passar nas provas.
Eu poderia dizer muito mais, mas creio que isso é suficiente para qualquer um que aplicar essas dicas se dar muito bem nos concursos. A diferença está aí: aplicar ou não. Está na mão de cada um. Cada candidato precisa reconhecer que técnica dá certo ou que dá errado para si, e fazer as adaptações necessárias ou desenvolver outras;
Você pensa em ou já deu aulas pra repassar um pouco do seu conhecimento para os colegas?
Nunca planejei dar aulas. Quem me conhece sabe da minha timidez. Mas isso é algo contra o que sempre tenho lutado, e a faculdade me ajudou bastante com os inúmeros seminários apresentados no curso. Hoje me sinto mais à vontade diante de um público, se eu me sentir preparado para apresentar o assunto estudado. Também, no mundo de hoje, com o conhecimento em mudança constante, um profissional não pode se dar ao luxo de ficar retendo conhecimento. Tem que dividir e multiplicar mesmo, da mesma forma que tem que se atualizar e buscar novos conhecimentos.
Na nossa profissão, aprendemos a dividir o conhecimento, pois temos de compartilhar com colegas de trabalho no dia-a-dia, com os estagiários ou auxiliares de biblioteca. Então, todo bibliotecário tem um pouco de professor também. Aliás, talvez o maior beneficiado seja o instrutor, pois este é obrigado a aprofundar-se mais no conhecimento, além de obter o feedback do aluno. É beneficiado duas vezes.
Sei que vou acabar dando aula, nem que seja quando for fazer mestrado ou doutorado, ou em algum curso para bibliotecários. Mas creio que eu tenho um perfil mais técnico do que de docente; me identifico mais com a prática do que com a teoria.
Concluindo então, sei que mais cedo ou mais tarde vou dar aulas, mas não procuro por isso. Deixarei a coisa acontecer por si só. Se pintar a chance vou encarar, pois gosto de desafios.
Deixe uma mensagem para nossos leitores.
Deixo uma máxima que adotei na minha vida:
“Continue fazendo o que você sempre fez, e você vai continuar conseguindo os resultados que sempre conseguiu.”
É uma afirmação dura, mas que tem o objetivo mesmo de mexer com o ego. Se você acha que sua vida já chegou aonde quer chegar, então está tudo certo. Se não, então você já sabe que tem de mudar algumas coisas, ou talvez muitas coisas. Fazer o que sempre faz só conduz à estagnação. Mudar vai o levar a lugares e patamares diferentes, na maioria das vezes melhores. Qual é a sua escolha: mudar ou ficar como está?
Muito obrigado, André. E tudo de bom em 2009.
Para você também, Gustavo! O mesmo para os leitores do Blog! Deixo o meu e-mail para quem quiser entrar em contato comigo: bibliandre @ gmail . com.
Força nos estudos!!!